Relato de sequestro de professores na Cidade Universitária (UFRJ)

Este e-mail, infelizmente, chegou em nossa caixa de entrada nesta manhã... É o relato de dois professores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) que foram sequestrados dentro do Campus à caminho da realização de experimentos... É uma situação absurda e recorrente em uma das melhores universidades do país... 

"Nós somente gostaríamos de poder fazer o nosso trabalho! Aquilo que amamos!"


Viveremos para sempre? A ciência do Envelhecimento



Qin Shi Huang foi um poderoso imperador chinês.

A Grande Muralha da China? Ideia dele. Obcecado pelo poder, decidiu que uma dinastia não era suficiente; e, determinado em encontrar a fonte da imortalidade, recrutou alquimistas e médicos da corte para juntos elaborarem um elixir da vida. Ironicamente, a substância mística foi a responsável por sua morte precoce. Uma das hipóteses mais aceita é de que o imperador que queria viver pra sempre morreu por intoxicação por altas doses de mercúrio.

O sonho de não envelhecer não é exclusivo do imperador chinês. Desde as mumificações budistas, até as mais recentes empresas que prometem congelar seu corpo, são constantes juras da conservação da idade biológica do corpo humano.

Essa ideia fascina até mesmo os bilionários do Vale do Silício, como os fundadores da Google, que se envolveram na recente criação da empresa Calico. O slogan da empresa é “We want to tackle aging” (“Queremos resolver o envelhecimento”). E, para alcançar esse ambicioso objetivo, a empresa já recrutou mais de 25 cientistas da academia, incluindo celebridades como a americana Cynthia Kenyon e a fundadora da empresa Coursera e ex-professora da Universidade de Stanford, Daphne Koller.

Mas, será que o envelhecimento pode ser resolvido pela ciência?

Algo que primeiramente precisa ser dito é que a expectativa de vida média de humanos vem de fato aumentando quase que linearmente nos últimos anos. Veja a tabela abaixo:


Pois é, se você tem entre 18-24 anos e vivesse no século 19 você provavelmente estaria curtindo suas últimas semanas de vida. A maioria dos seus amigos já teria morrido. Esse grande aumento na expectativa de vida não significa que estamos entendendo como parar o envelhecimento. O maior responsável por esse aumento na longevidade humana foram os avanços em saneamento básico – que reduziram drasticamente as taxas de mortalidade infantil.

Apesar da expectativa de vida humana ter quase que triplicado nesse tempo, o recorde de longevidade máxima de humanos não mudou tanto assim. A japonesa Chiyo Miyak é a pessoa viva mais velha do mundo, com 117 anos. Porém, isso não chega nem perto do recorde de todos os tempos, que ainda pertence à francesa Jeanne Calment, que faleceu em 1997 com 122 anos.

E que intervenções seriam essas?

Pesquisadores do mundo todo, incluindo grupos brasileiros, vêm também explorando o uso de organismos que vivem poucos dias, como é o caso de leveduras, pequenos vermes e moscas. A ideia por trás do uso desses modelos é que eles vivem pouco, permitindo realizar uma série de experimentos em pouco tempo e ver o que modula o envelhecimento nesses organismos antes de testar em animais mais complexos e que vivem anos, como roedores.

Os dados, são impressionantes. 

Um dos artigos mais interessantes nesse sentido, conseguiu com a remoção de apenas dois genes fazer pequenos vermes chamados C. elegans que normalmente vivem em média 20 dias, passarem de 120 dias. Já em camundongos, a redução um gene próximo foi capaz de aumentar a longevidade em 26%.

Em breve a eficiência de compostos que são eficazes em aumentar longevidade de animais em laboratório será testada em humanos. O primeiro teste clínico para envelhecimento com humanos iniciará em breve, onde será testada a droga usada no tratamento de diabetes do tipo II, Metformina. Até então, o órgão FDA (Food and Drug Administration) não permitia testes para avaliar efeitos de compostos no envelhecimento humano, por não considerar envelhecimento uma doença. Esse ensaio abrirá as portas para novos testes.

Se esses compostos nos permitirem chegar aos 120 anos, podemos pensar em viver mais que isso? Que tal 150 anos? Essa é a idade que algumas tartarugas chegam. 200 anos? É o tempo de vida estimado para a Baleia da Groelândia. Uma espécie de Tubarão chega até 400 anos de vida, mostrando que sim, é possível um vertebrado acompanhar mais de 100 Copas do Mundo. O que os cientistas estão fazendo no momento é tentando entender o que há de tão especial nesses animais.

Em As intermitências da morte, de José Saramago, imagina-se uma sociedade onde pessoas param de morrer. Inicialmente, há uma comemoração e euforia, mas logo, o caos se instala. Uma sociedade que não envelhece, apesar dos benefícios óbvios, também precisará lidar com contrapartidas. Haverá excesso populacional? Se sim, como lidarmos com isso? O tirano Qin Shi Huang estaria até hoje controlando sua dinastia? Existem materias disponíveis na Internet debatendo o aspecto ético e moral dessa linha de pesquisa.

Esse foi um texto para discutirmos a plausibilidade da possibilidade – que é o papel da ciência, definir e trilhar o caminho das possibilidades. O que faremos com isso, é algo que a sociedade precisa decidir em conjunto. E essa discussão fica para o próximo texto. 

Quem viver verá.

Por que envelhecemos?



“Our bodies break down, sometimes when we're 90, sometimes before we're even born, but it always happens” 

Dr. House


Todos nós sabemos, intuitivamente, o que é envelhecer. Para alguns, soa prosaico, o amadurecimento, perder as espinhas no rosto, ficar sábio. Para outros, é o fardo de conviver com as dores nas articulações e uma linha direta com um cardiologista. Mas, biologicamente, o que significa isso tudo? O que muda dentro do nosso corpo com o passar dos anos?

Uma revisão publicada na prestigiosa revista americana Cell, intitulado “The Hallmarks of Aging” compilou algumas das principais mudanças que ocorrem durante o envelhecimento em seres humanos. Esses aspectos seriam universais, no sentido de também ditarem também como outros animais não-humanos envelhecem. 

O DNA é a molécula responsável por armazenar o passo-a-passo de como uma célula deve funcionar. Com o passar dos anos, acumulamos danos e mutações nessa molécula. É como se fosse um CD que com o tempo começasse a ficar arranhado e já não reproduzisse uma música com a mesma perfeição. Essas lesões podem ocorrer naturalmente, durante o processo de duplicação do DNA na divisão celular, mas também podem ser consequência de componentes externos, como a exposição a agentes químicos e radiações. Por exemplo, diferentes componentes presentes no cigarro são mutagênicos. Além do envelhecimento, mutações no DNA estão associadas ao surgimento de outras doenças, como o câncer.

Moléculas de DNA ficam armazenadas em dois lugares na célula. No núcleo, fica a maior parte da informação que a célula precisa para funcionar, e obviamente é problemático o surgimento de mutações lá. Porém, uma pequena quantidade da informação também fica armazenada em organelas chamadas Mitocôndrias, que desempenham inúmeras funções, incluindo a de produção de energia em forma de moléculas de ATP (Trifosfato de adenosina). Mutações deletérias no DNA mitocondrial levam ao declínio na atividade dessas organelas acarretando em uma progressiva deterioração nas funções celulares.

Outra mudança que ocorre em nosso DNA, com o envelhecimento, são as modificações epigenéticas. Nosso DNA é feito por 4 letrinhas que representam nucleotídeos (A de Adenina; G de Guanina; C de Citosina e T de Timina) e mudanças na sequencia linear dessas letras é o que ocorre no caso das mutações. Epigenética, como o nome sugere (epi, do grego além de) são alterações que influenciam a forma na qual a célula lê a informação contida no DNA, sem que ocorram mudanças na sequência linear dos nucleotídeos. Toda célula, desde as células do músculo até as células que compõem nosso cérebro tem a mesma sequencia linear de DNA. O que permite que tenhamos diferentes tipos de células e órgãos é a epigenética. Essas modificações, que podem, por exemplo, a adição de grupo metil (metilação) em nucleotídeos, seriam como coordenadas de leitura desse texto, fortalecendo ou inutilizando certas regiões do genoma. Um outro tipo de modificação importante que ocorre durante o envelhecimento são acetilações, fosforilações e metilações em proteínas que dão estrutura ao nosso DNA, as histonas.

Uma última mudança que ocorre em nosso DNA com o envelhecimento é o encurtamento dos telômeros, estruturas na extremidade do material genético que servem como proteção para a informação contida. Eles diminuem de tamanho a cada divisão celular. Com o passar do tempo, a redução dessas estruturas impossibilita novas divisões, podendo levar a morte celular. Em 1965, Leonard Hayflick descobriu que células humanas em cultura conseguiam se dividir até 50 vezes. Esse número foi chamado de limite de Hayflick. Esse número é variável entre as espécies, e possuí alguma correlação com a expectativa de vida. Por exemplo, camundongos (que vivem até 3 anos) tem um limite de Hayflick entre 14 e 28 divisões, enquanto, Tartarugas de Galápagos, que podem viver mais de 150 anos, tem um limite de 125 divisões!

Existem algumas outras mudanças nas nossas células que acontecem com o envelhecimento, que o vídeo abaixo tenta resumir. Entre as mais importantes podemos destacar a perda no controle de qualidade de proteínas e a queda no número e o no poder regenerativo de células-tronco.



Uma analogia ao envelhecimento do corpo humano pode ser a mesma de um carro. Com o passar dos anos e com o uso, partes caem pela fricção e desgaste, o metal enferruja, filtros não funcionam, as borrachas racham. Assim como carros, as partes do nosso corpo também vão sofrendo esse desgaste com o tempo, e alguns pesquisadores acreditam que a taxa de envelhecimento é ditada pelo balanço entre o acúmulo de danos e a eficiência dos sistemas de reparo do nosso organismo. Há muita coisa que ainda não entendemos sobre o envelhecimento. Mas em suma, sabemos que uma vida mais longa depende de dietas, exercícios, medicamentos, entre outros fatores externos. Há muita expectativa do que as futuras tecnologias possam melhorar ainda mais nossa capacidade de reparo de danos. E assim como um bom mecânico permite que carros antigos continuem andando nas ruas, talvez novas tecnologias nos permitam viver mais reparando e trocando peças que não estão mais tão jovens.

Alerj se manifesta em defesa da FAPERJ

Comte Bittencourt - presidente da Comissão de Educação da Alerj - lançou um Manifesto em Defesa da Faperj, que conta com o apoio de pelo menos 33 deputados.

Após a saída do presidente da FAPERJ, em abril, a instituição passou a ser gerida pelos diretores de Ciência e Tecnologia – Jerson Silva e Eliete Bouskela. Porém, o governo pretende escolher novos nomes, a partir de lista tríplice elaborada pelos conselheiros do órgão. A comunidade científica é contra essa decisão e prefere a permanência dos pesquisadores no comando até Março do ano que vem. Comte Bittencourt defende que, para garantir a continuidade democrática da gestão e sua autonomia, é necessário que o Executivo respeite as escolhas internas da Fundação:

“A permanência das atuais diretorias científica e de tecnologia, de acordo com a solicitação de reitores universitários e de dirigentes de institutos de pesquisa, é crucial para assegurar que a Faperj continue a ser gerida com independência necessária para garantir o desenvolvimento de suas atividades, prioritárias para o fomento à ciência e a tecnologia no estado”.





Como acessar artigos científicos de graça?

Um aluno finalizando correções de sua tese, se depara com o comentário de seu orientador: 
-"Adicionar ao fim dessa frase, referência Osman et al., 1998, por favor". 

Em uma busca no Google, o aluno se surpreende. Para ler Osman et al., 1998, a revista exige uma simbólica contribuição de 30 dólares. Isso mesmo, 30 dólares, mais de 100 reais, para que o aluno possa ler um único trabalho, que foi financiado com dinheiro público. Os autores, os revisores, não receberam nenhum centavo da revista pela publicação do trabalho. Mas essas são as regras.

Em Abril de 2011, as regras mudaram. Em um plot twist, uma cientista do Cazaquistão, Alexandra Elbakyan, criou o Sci-hub - site capaz de burlar o sistema de pagamento para acesso do artigo. Ele possuí um site irmão, chamado LibGen. Esses servidores piratas, muitas vezes chamados de PirateBays da ciência, já contém mais de 51 milhões de artigos, sendo de fácil uso. Um breve tutorial abaixo: 

Imagine que, o link do artigo que você quer acessar seja:

http://www.pesquisabiomed.blogspot.com/artigo-interessante.pdf

Para acessar o artigo pelo Sci-hub, basta adicionar .sci-hub.hk ao final do .com indo para este endereço:

http://www.pesquisabiomed.blogspot.com.sci-hub.bz/artigo-interessante.pdf

E, voilà! Se um dos servidores do Sci-hub tiver acesso a esse artigo ele te direcionará à versão PDF do seu artigo de interesse. 100% de graça, e obviamente, 100% ilegal.



O fato de ser ilegal não está impedindo quase ninguém de utilizar o serviço. A revista Science publicou que em um período de apenas 6 meses, o Sci-hub teve mais de 28 milhões de downloads de artigos científicos. Cientistas do Irã até do Vale do Silício estão utilizando. Brasileiros, inclusive, são uma parcela significativa. (Nesse site é possível ver quais foram os artigos mais baixados em diferentes regiões do país).

Caso o Sci-hub seja bloqueado

É uma questão de tempo para que as editoras conseguam tirar, ao menos temporariamente, o Sci-hub do ar. Nesse caso, quais seriam as alternativas de obter gratuitamente artigos científicos?

1) Google Acadêmico. É a melhor forma, depois do Sci-hub. Lá, é possível encontrar links para PDF do artigo anexados em outros sites, como sites de laboratório, ou o no Researchgate;

2) Pedindo diretamente para os autores por e-mail. Normalmente, autores são solícitos quando alguém está interessado em ler seus trabalhos;

3) Twitter. Sim, uma das formas de conseguir um artigo de interesse é pedir o artigo para alguém que tenha acesso com a hashtag #iCanHazPDF;

4) PrePubmed ou preprints: Está cada vez mais frequente pesquisadores na área biomédica depositarem seus trabalhos em uma versão que precede a revisão de pares em uma formato chamado preprint. O banco de preprints mais famoso na área biomédica é o bioRxiv, e uma das formas de procurar em todos bancos de preprint de uma vez é utilizar o site PrePubmed.

Se nenhuma dessas estratégias funcionar, uma última alternativa é procurar em bibliotecas de universidades. Pergunte para seu orientador, mas não faz tanto tempo que essa era a única forma de conseguir ler artigos científicos.


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Academia Brasileira de Ciências alerta governo sobre possível fusão de Secretarias no Rio de Janeiro

Em documento enviado nessa sexta-feira (21/10) para Luiz Fernando Pezão (Governador do Rio de Janeiro), SBPC (Sociedade Brasileira de Progresso para Ciência) e ABC (Academia Brasileira de Ciências) alertam que fusão de Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação com a da Educação poderia causar prejuízos enormes para ambas as áreas e também para o Estado do Rio de Janeiro e sua população.

“A existência da Secretaria fluminense de CT&I certamente contribuiu para que o Estado desenvolvesse as condições de se tornar atrativo a uma série de empresas, muitas delas de expressão mundial, que optaram por se instalar no Rio de Janeiro em anos recentes”, ressalta o documento.

Para as instituições, a junção das respectivas Secretarias seria prejudicial, especialmente no médio e no longo prazo. Na carta, entidades afirmam que incorporação ignoraria as naturezas diferentes da área de CT&I e da área educacional. “São áreas complementares – assim como há complementariedade entre tantas outras áreas -, mas distintas. A gestão da pasta educacional e a implementação das políticas na área exige o domínio de um conjunto específico de conhecimentos teóricos e competências práticas que devem resultar na formação acadêmica e cidadã de crianças, adolescentes e jovens”.




Veja aqui documento.

Entropia Coletiva: A primeira plataforma de crowdfunding científico do Brasil

A bióloga brasileira Marcela Uliano queria entender melhor a biologia do Mexilhão Dourado - espécie invasora, que ameaça a biodiversidade da Amazônia. Marcela estruturou seu projeto para que ele fosse financiado pelo financiamento coletivo. Ela usou uma plataforma de crowdfunding para apresentar a pesquisa, objetivos e o valor para sua realização. Algo que chamou atenção do público, era que com uma contribuição pequena, como 20 reais, já era possível adquirir uma recompensa. No caso, colocar seu nome em uma proteína estrutural do Mexilhão. Ao final da campanha, ela arrecadou aproximadamente R$ 40 mil para realização do projeto. 

Além dela, outro exemplo foi o crowdfunding organizado pela ex-professora da UFRJ, Suzana Herculano, que conseguiu arrecadar em 2015, mais de 110 mil reais para manter seu laboratório funcionando com a crise de financiamento público.



Esses exemplos refletem uma tendência mundial. Em outros países, o crowdfunding também já é uma febre. Projetos científicos podem ser financiados por dinheiro de interessados. E no meio disso, existem sites dedicados apenas para o financiamento de projetos científicos, como o Experiment. A Lifespan.io, por exemplo, é uma plataforma de crowdfunding apenas para projetos na área da biologia do envelhecimento. No Brasil, essa lacuna ainda não havia sido preenchida, não havia uma plataforma focada em financiar projetos científicos por crowdfunding. Até agora.

Recentemente, surgiu o projeto intitulado Entropia Coletiva, fundada por três jovens cientistas brasileiros. Essa é a primeira plataforma brasileira de crowdfunding científico. Em breve, será possível que pesquisadores estruturem e lancem suas campanhas de financiamento coletivo. Interessados e amantes da ciência poderão analisar e financiar projetos - recebendo recompensas por isso. Se a campanha alcançar a meta estipulada, 13% do valor total arrecadado é transferido para a empresa e o resto vai para o pesquisador. Por fim, é comum que os contribuidores recebam em primeira mão o andamento e avanços do projeto - um baita estímulo para os curiosos!

E, como aumentar suas chances de ter seu projeto financiado? Um estudo publicado esse ano, analisou dados de mais de 300 projetos de crowdfunding científicos, e descobriu que projetos têm bem maiores chances de ser financiados se incluírem vídeos, animações com um toque de humor. Por fim, eles viram que propostas depositas em plataformas voltadas para ciência têm taxas de sucesso bem melhoers do que projetos científicos que foram apresentados em plataformas gerais de crowdfunding, como o Kickstarter

Leia mais:

 
biz.